Os recentes estudos sobre o aumento do teor de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% não contemplaram testes de durabilidade em veículos, o que levanta preocupações entre especialistas sobre possíveis problemas para motoristas, especialmente para os 4,7 milhões de veículos que utilizam apenas gasolina.

De acordo com o Relatório da Frota Circulante 2026 do Sindipeças, que reúne dados de 2025, o Brasil possui atualmente 37,9 milhões de veículos flex, mas a quantidade de automóveis movidos exclusivamente a gasolina caiu de 11,9 milhões em 2016 para os números atuais. Apesar dessa diminuição, esses modelos ainda estão em circulação, tanto em versões antigas quanto nas concessionárias.

Testes e Protocólos de Avaliação

O protocolo que estabelece a nova mistura de etanol foi definido em dezembro de 2024. Em 2025, o IMT (Instituto Mauá de Tecnologia) conduziu avaliações em veículos populares dos anos 1990, que operavam com um teor de 22% de etanol, e em modelos importados com cerca de dez anos de uso. Embora os testes tenham mostrado que, a curto prazo, o aumento do teor de etanol poderia resultar em um leve aumento no consumo de combustível, não foram realizados testes de durabilidade que poderiam identificar problemas a longo prazo.

Renato Romio, professor e chefe do laboratório de motores e veículos do IMT, afirmou que a avaliação da dirigibilidade, incluindo a partida a frio, foi realizada com a nova mistura de 32%, mas as medições de emissões foram feitas com o E30. Ele ressaltou que a decisão sobre a aprovação do aumento do teor de etanol cabe ao CNPE (Conselho Nacional de Política Energética).

Preocupações com Veículos Importados

Os problemas relacionados ao aumento do teor de etanol na gasolina já são uma realidade, especialmente para veículos importados que possuem sistemas de injeção eletrônica mais sofisticados, os quais são mais sensíveis a combustíveis de baixa qualidade. Bruno Tinoco, proprietário da oficina Motorfast, relatou que está realizando reparos em um Audi Q7 que apresentou problemas devido ao abastecimento com gasolina comum, já que não havia gasolina premium disponível.

A gasolina premium, que inclui a linha Podium da Petrobras, a Ipiranga Ipimax Pro e a Shell V-Power, tem um teor de etanol limitado a 25% e uma octanagem superior, mas seu preço é significativamente mais alto, podendo ultrapassar R$ 10 por litro em São Paulo. Tinoco mencionou que veículos importados, que foram projetados para funcionar com combustíveis de menor teor de etanol, podem apresentar danos como carbonização, resultando em custos elevados de reparo.

Entidades do setor automotivo expressaram suas preocupações em uma carta enviada ao governo federal, afirmando que não existem estudos conclusivos que garantam a segurança do aumento da mistura de etanol. Marcelo Godoy, presidente da Abeifa, destacou a possibilidade de veículos parados devido a problemas mecânicos, pedindo mais tempo para discutir e alinhar a mudança. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu a medida, afirmando que os testes realizados garantem a segurança do aumento do teor de etanol.

A discussão sobre o teor de etanol na gasolina remete a questões econômicas e históricas, como em 1989, quando a escassez de etanol levou a uma redução da mistura de 22% para 17%, resultando em filas para abastecimento e desvalorização de veículos movidos a etanol.