A seleção da República Democrática do Congo (RDC) fez história ao participar da Copa do Mundo pela primeira vez em mais de 50 anos, reunindo torcedores de todo o país, mesmo após a derrota para a Inglaterra nas oitavas de final.

Após cinco décadas desde sua única aparição anterior, os Leopardos conseguiram unir uma nação marcada por conflitos, surtos de doenças e incertezas políticas. A campanha da equipe proporcionou um raro senso de unidade para milhões de congoleses.

“É raro eu sentir orgulho de ser congolês. Durante esta Copa do Mundo, nossa seleção nos fez sentir orgulho, como se nada estivesse errado. Acredito que estou testemunhando a maior geração da história da RDC”, afirmou Héritier Muyisa, um estudante de 28 anos em Bunia, em entrevista ao Al Jazeera.

Um contraste com 1974

As comparações com a edição de 1974 são inevitáveis. Naquela ocasião, jogando como Zaire, os Leopardos perderam todos os três jogos sem marcar um gol, enfrentando derrotas severas para Escócia, Iugoslávia e Brasil.

“Éramos uma grande nação naquela época. Perder por placares tão altos sem marcar um único gol parecia uma maldição”, relembrou Lukambila Jacques, de 65 anos, que assistiu à primeira campanha da seleção na Copa.

O jogador que simbolizou a recuperação dos Leopardos foi Yoane Wissa, que se tornou o primeiro artilheiro da RDC na Copa do Mundo, anotando três gols. Seu cabeceio contra Portugal quebrou um jejum de 52 anos sem gols em Copas e fez muitos torcedores acreditarem que a seleção pertencia ao maior palco do futebol.

“Não esperava que jovens como eles – como nós – fizessem mais de 100 milhões de pessoas se orgulharem”, comentou Dorcas Mudimo, uma residente de 26 anos de Bunia, após a derrota para a Inglaterra. “É uma fonte de orgulho para toda a África Central.”

Um percurso histórico

A trajetória dos Leopardos foi marcada por uma série de conquistas que transformaram esperança em crença. O empate contra Portugal foi um ponto de virada, gerando celebrações em cidades como Kinshasa, Goma e Bunia.

“Achei que ficaríamos satisfeitos apenas em nos classificar para a Copa do Mundo. Mas nossos jogadores mostraram que podíamos competir com Portugal, Espanha e outras grandes nações”, disse Manassé Limbaya, descrevendo a campanha como “estelar” desde as eliminatórias.

Os Leopardos empataram com Portugal, venceram o Uzbequistão e perderam por pouco para a Colômbia antes de serem eliminados pela Inglaterra. “Meu coração estava acelerado durante a partida contra a Inglaterra. Eles têm estrelas de classe mundial, mas sabia que daríamos trabalho a eles”, relatou Cephas Agbwabe, um morador de Bunia.

As partidas da RDC atraíram grandes públicos nos centros de exibição em Bunia, com celebrações que muitas vezes se estendiam pelas ruas. No entanto, a atmosfera mudou rapidamente durante o jogo contra a Inglaterra, à medida que a derrota se aproximava.

Após o apito final, muitos torcedores deixaram os estádios em silêncio, tentando processar o término de uma campanha que superou quase todas as expectativas. Apesar da eliminação, o capitão da Inglaterra, Harry Kane, reconheceu a dificuldade imposta pela seleção congolense. “Sabíamos que teríamos uma pedra difícil de quebrar, e eles provaram isso”, afirmou Kane.

O técnico da RDC, Sebastien Desabre, enfatizou a importância do desempenho da equipe. “É verdade que estamos decepcionados, porque acreditávamos que poderíamos conseguir. Jogamos bem, mas acabamos concedendo algumas chances. Um dos melhores jogadores do mundo marcou dois gols contra nós”, disse Desabre.

Ele destacou que a derrota se deveu a pequenas margens e não a uma diferença de qualidade. “É hora de dar crédito aos jogadores pelo que mostraram. Fomos talvez derrotados por um pouco de experiência nos momentos finais. É a natureza do futebol. Aprendemos e continuamos melhorando.”

Para os torcedores em Bunia, a eliminação não diminuiu o que os Leopardos conquistaram. Cinquenta e dois anos após deixar sua única Copa do Mundo anterior sem pontos ou gols, a seleção retornou ao maior palco do futebol e demonstrou que pode competir com algumas das equipes mais estabelecidas do mundo. “Foi a primeira vez que ouvi o hino nacional do meu país em uma Copa do Mundo”, disse Agbwabe. “Espero, um dia, contar aos meus filhos que testemunhei esses momentos gloriosos.”