Descendentes de africanos escravizados manifestam que um pedido de desculpas formal pelo comércio transatlântico de escravos não representa justiça. À medida que crescem as demandas por reparações, eles afirmam que o reconhecimento sem ações significativas não pode reverter gerações de perdas, deslocamentos e exploração.
A discussão ganhou novo impulso após a conferência de três dias intitulada “Próximos Passos”, realizada em Acra de 17 a 19 de junho, que reuniu chefes de Estado, formuladores de políticas, especialistas jurídicos, grupos da sociedade civil e representantes da diáspora africana. O evento ocorreu meses após a Assembleia Geral das Nações Unidas ter adotado uma resolução histórica, apoiada por 123 países, que reconhece o comércio transatlântico de escravos como um dos crimes mais graves contra a humanidade.
Demandas por reparação vão além das palavras
Os participantes da conferência aprovaram um quadro de 19 pontos que exige pedidos de desculpas formais de países e instituições que se beneficiaram da escravidão, além de mecanismos de reparação, alívio da dívida, devolução de artefatos culturais e restos humanos, iniciativas educacionais e maior cooperação internacional.
No entanto, para muitos descendentes de africanos escravizados, um pedido de desculpas, por mais formal que seja, não é suficiente. Yaw Owusu Akyeaw, do grupo African Diaspora 126+, afirmou que “um pedido de desculpas verbal é uma forma simbólica de reconhecer um erro enquanto se faz nada tangível para reparar o dano ou compensar os afetados”.
Marvin Walker, um empreendedor guianense que recentemente se mudou para Gana, compartilhou uma visão similar, considerando o pedido de desculpas uma “gesto superficial” que não reflete um verdadeiro arrependimento.
O impacto histórico da escravidão
O comércio transatlântico de escravos não apenas devastou aqueles que foram levados, mas também desmantelou famílias, desestabilizou comunidades e privou a África de gerações de pessoas, trabalho e conhecimento. David Adofo, da African Chamber of Content Producers, destacou que o trauma dos que ficaram para trás foi transmitido por gerações.
“A escravidão não afetou apenas os que foram levados, mas também os que ficaram, que perderam entes queridos e a confiança na humanidade”, afirmou Adofo. Ele também mencionou que programas coloniais, como o Bantu Educational Kinema Experiment, deixaram legados que ainda impactam as sociedades africanas.
Para alguns descendentes, as feridas são tão profundas que nenhum pedido de desculpas pode trazer fechamento. Um descendente que preferiu não se identificar disse à Al Jazeera: “Não tenho ideia de onde sou originalmente. Nenhum pedido de desculpas me dará fechamento.”
A conferência foi uma tentativa de mover a conversa além do simbolismo, com o presidente ganense John Dramani Mahama anunciando a criação de três organismos internacionais focados em justiça reparatória, restituição cultural e assuntos legais. Contudo, muitos acreditam que a justiça não será medida apenas por declarações oficiais.
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