O acesso à radioterapia continua sendo um dos principais obstáculos no combate ao câncer no Brasil. Um estudo publicado em fevereiro no International Journal of Radiation Oncology mapeou as desigualdades desse tratamento no país, evidenciando barreiras geográficas, sociais e de complexidade que comprometem as chances de cura.

A pesquisa analisou mais de 840 mil procedimentos radioterápicos realizados entre 2017 e 2022 em todo o Brasil. A distância média percorrida para acessar a radioterapia é de 120 km entre o domicílio do paciente e o centro de tratamento. No entanto, essa média varia significativamente entre as regiões: no Sul, é de 71,3 km; no Sudeste, 73,8 km; no Nordeste, 161,8 km; no Centro-Oeste, 238,9 km; e no Norte, 442,2 km, cerca de seis vezes mais do que no Sul e Sudeste.

Esse problema persiste há décadas. De acordo com a rádio-oncologista Ana Carolina de Rezende, do Einstein Hospital Israelita, “aproximadamente 60% dos pacientes no Brasil precisam se deslocar para outro município para receber a radioterapia, e isso não tem melhorado ao longo dos anos”. Ela acrescenta que, embora haja um aumento modesto no número de equipamentos, este não é suficiente diante da crescente demanda, e muitos são antigos e defasados.

Impactos das Desigualdades Sociais

Fatores sociais influenciam tanto quanto a geografia no acesso ao tratamento. O rádio-oncologista Fabio Ynoe de Moraes, principal autor da pesquisa e membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia, destaca que “embora a extensão territorial das regiões Norte e Centro-Oeste contribua, o principal determinante não é a dimensão, mas a distribuição assimétrica da infraestrutura oncológica, que está fortemente correlacionada a desigualdades regionais de desenvolvimento”.

Entre 2017 e 2022, pacientes não brancos (negros, pardos, indígenas e amarelos) percorreram, em média, 145,6 km para realizar radioterapia, quase 50% a mais do que os pacientes brancos, que viajaram uma média de 97,3 km. Essa diferença é atribuída à concentração de serviços em áreas mais desenvolvidas, perpetuando padrões históricos de exclusão.

Consequências do Acesso Limitado

As longas distâncias para os centros de tratamento impactam diretamente a adesão ao tratamento, que é realizado de forma contínua em sessões diárias. Pacientes que precisam viajar longas distâncias muitas vezes enfrentam dificuldades financeiras, necessitando de moradia temporária ou dependendo de doações.

“Infelizmente, muitos abandonam o tratamento ou atrasam seu início devido às dificuldades de deslocamento, o que tem um custo clínico direto: diminui a efetividade do tratamento e aumenta os riscos de recidivas”, alerta Rezende. Além disso, a concentração de tecnologias avançadas em poucos centros resulta em um deslocamento adicional de, em média, 45 km para procedimentos mais complexos.

O Instituto Nacional do Câncer (Inca) projeta um aumento de 10% nos casos de câncer até o final da década. Isso torna ainda mais urgente a revisão da distribuição dos serviços de radioterapia, conforme enfatiza Moraes: “O desafio central é expandir a capacidade de forma sustentável e equitativa, alinhando crescimento tecnológico à redução de disparidades regionais”.