O governo dos Estados Unidos manifestou, na última sexta-feira, preocupação com a decisão do Brasil de expulsar Sergey Vladimirovich Cherkasov, identificado como espião do serviço de inteligência militar russo. A nota do Departamento de Estado classifica a medida como um retrocesso no compromisso conjunto de combater interferências estrangeiras.
Além de criticar a expulsão, o governo americano pediu que o Brasil considere o precedente que essa decisão pode criar e colabore com Washington para responsabilizar indivíduos que, segundo o Departamento de Estado, "ameaçam nossa segurança coletiva".
Eis a íntegra da nota:
“Os Estados Unidos estão profundamente preocupados com a decisão do Brasil de permitir que um indivíduo com ligações conhecidas com os serviços de inteligência russos deixe o país. Essa decisão prejudica nosso compromisso comum de combater a interferência estrangeira e proteger a integridade de nossas instituições democráticas. Instamos nossos parceiros brasileiros a considerarem o precedente que isso cria e a trabalharem conosco para responsabilizar aqueles que ameaçam nossa segurança coletiva.”
DECISÃO BRASILEIRA
A expulsão de Cherkasov foi publicada no Diário Oficial da União na última segunda-feira. O ato determina que a expulsão será efetivada após o cumprimento da pena no Brasil ou mediante liberação pelo Poder Judiciário.
Além disso, a portaria impõe um impedimento de 30 anos para que Cherkasov retorne ao Brasil, contados a partir da execução da medida. O russo está preso desde 2022 em uma penitenciária federal em Brasília, cumprindo uma pena de 5 anos por falsidade ideológica, após ter sua condenação original de 15 anos reduzida.
Cherkasov é também alvo de investigações por suspeitas de espionagem, lavagem de dinheiro e corrupção, embora ele negue ser espião. A Rússia também refutou as alegações de que ele atuava em nome do país.
HISTÓRICO DO CASO
Cherkasov foi preso após ser deportado pela Holanda, onde tentava entrar com documentos brasileiros falsos sob o nome de Victor Muller Ferreira, com a intenção de estagiar no Tribunal Penal Internacional, em Haia.
Na época, o Serviço de Inteligência da Holanda informou que Cherkasov tinha ligações com o serviço de inteligência militar russo e que o acesso ao tribunal era estratégico, uma vez que a Corte investigava possíveis crimes de guerra da Rússia na Ucrânia.
De acordo com o FBI, Cherkasov atuou no Brasil desde 2012 utilizando a identidade falsa de Victor Muller Ferreira. Posteriormente, mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou relações internacionais na Universidade Johns Hopkins e buscou se aproximar de instituições acadêmicas e políticas.
Em maio de 2025, a Polícia Federal brasileira desmantelou uma rede de espionagem russa que operava com documentos falsos, revelando que ao menos 9 agentes estavam ativos no Brasil. O país servia como uma plataforma para a criação de identidades confiáveis para operações nos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio.
A situação de Cherkasov gerou disputas entre Rússia e Estados Unidos, com Moscou solicitando sua extradição para responder a acusações de tráfico de drogas, enquanto Washington o acusa de atuar como agente estrangeiro e de fraudes financeiras. A decisão brasileira, no entanto, refere-se à expulsão e não à extradição, e não especifica o país de destino de Cherkasov.
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