Um relatório da Bloomberg, baseado em dados da Netflix, indica que a plataforma enfrenta um crescente abandono de séries populares por parte dos espectadores, que não chegam a assistir a segunda temporada. Entre os fatores que contribuem para essa tendência, estão o cancelamento frequente de programas, os longos períodos de espera entre as temporadas e a orientação de muito conteúdo da Netflix para algoritmos em vez de focar na qualidade artística.

Essa mudança no comportamento do público também reflete uma nova era de consumo de entretenimento. O modelo de binge-watching, que foi uma inovação marcante da Netflix, surgiu em um momento em que a plataforma competia com a televisão tradicional. Atualmente, a concorrência vem de aplicativos como TikTok, YouTube e Reels, que oferecem conteúdos mais curtos e de fácil acesso, tornando o modelo da Netflix parecer ultrapassado.

Binge-watching: A vitória inicial da Netflix

Quando a Netflix lançou a temporada completa de “House of Cards” em fevereiro de 2013, isso revolucionou a forma de consumir TV. O streaming sem anúncios permitiu que os espectadores assistissem a episódios a qualquer momento, criando uma conexão mais rápida com os personagens e enredos. Essa abordagem foi eficaz em um contexto onde a Netflix competia diretamente com a TV tradicional.

Com o tempo, a Netflix superou essa competição. Em junho de 2025, a Nielsen anunciou que a visualização de conteúdos no formato de streaming da Netflix superou pela primeira vez a audiência da TV convencional, sinalizando uma mudança significativa no consumo de mídia.

A nova concorrência: aplicativos de vídeo

O crescimento de plataformas como TikTok e YouTube representa um novo desafio para a Netflix. Em 2024, adultos nos EUA passavam uma média de 62,1 minutos por dia assistindo à Netflix, enquanto 58,4 minutos eram dedicados ao TikTok. Globalmente, usuários do TikTok registraram uma média de 95 minutos diários, destacando um alto nível de engajamento.

Além disso, um relatório de 2025 indicou que o YouTube superou a Netflix em tempo médio de visualização diária, com 99,1 minutos contra 93,4 minutos. Embora esses dados apresentem metodologias diferentes, todos apontam para uma mesma direção: a verdadeira concorrência da Netflix não é mais a TV, mas sim os aplicativos de vídeo.

Reconhecendo essa ameaça, a Netflix implementou uma reformulação em abril, introduzindo um feed semelhante ao do TikTok, baseado em seu próprio conteúdo. Contudo, essa abordagem parece mais voltada para auxiliar na descoberta de novos programas do que para oferecer uma experiência de visualização imediata, que é o que muitos usuários buscam atualmente.

O futuro da Netflix diante das mudanças

Diante desse cenário, a Netflix pode precisar repensar sua estratégia de produção e lançamento de séries. Uma alternativa seria priorizar a criação de minisséries ou séries de uma única temporada, permitindo que os espectadores consumam conteúdos completos sem a preocupação de possíveis cancelamentos. Além disso, a plataforma poderia considerar dividir suas séries em episódios menores, como foi tentado com o projeto Quibi.

Para reacender o interesse em seu conteúdo, a Netflix poderia também optar por um modelo de lançamento semanal, que já demonstrou ser eficaz em alguns casos, como no reality show “Love Is Blind”. Embora a Netflix tenha explorado outras áreas, como podcasts e conteúdos ao vivo, ainda há um longo caminho a percorrer para se adaptar às novas expectativas dos espectadores.