Pesquisadores do AstroLab, laboratório de astrobiologia vinculado ao Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQUSP), estão investigando a possibilidade de Marte ter condições habitáveis. O foco da pesquisa é uma bactéria chamada Staphylococcus nepalensis, encontrada em Araruama, no Rio de Janeiro.

A S. nepalensis possui a habilidade de sobreviver em ambientes extremos, sendo objeto de estudos que simulam as condições desafiadoras de Marte, especialmente as salmouras intermitentes, que são fluxos de água extremamente salinos que aparecem na superfície do planeta vermelho por curtos períodos.

Descoberta em 2003 no trato digestivo de cabras no Nepal, a S. nepalensis já foi identificada em diversos ambientes, incluindo a saliva de gatos domésticos. No Brasil, a bactéria foi encontrada em lagunas hipersalinas da região de Araruama, que apresentam uma concentração de sal superior à da água do mar.

A descoberta no Brasil

A presença da S. nepalensis foi confirmada em seis municípios da Região dos Lagos, no litoral fluminense, em 2019, por meio de amostras coletadas em lagoas da área por um grupo de pesquisadores do AstroLab.

A bactéria foi especificamente localizada na laguna Brejo do Espinho, que se conecta com o mar. Essa laguna tem profundidade média baixa, variando entre dois centímetros e dois metros, o que intensifica as variações de salinidade ao longo do ano.

No Brejo do Espinho, a concentração de sal aumenta drasticamente durante a seca e diminui consideravelmente nas chuvas, um padrão que nem todos os microrganismos conseguem suportar. Essa capacidade de adaptação da S. nepalensis a ambientes hostis a torna um modelo valioso para pesquisas sobre como a vida microbiana poderia sobreviver em Marte.

Adaptação em Marte

Os pesquisadores do AstroLab estão analisando como a S. nepalensis poderia se adaptar às condições das salmouras intermitentes que ocorrem durante o verão em Marte, onde a água congela à noite e retorna ao estado líquido durante o dia.

Além disso, o grupo estuda a genética da bactéria para entender os mecanismos moleculares que possibilitam essa adaptação. Os resultados da pesquisa podem ampliar o conhecimento sobre as condições habitáveis em Marte e os possíveis mecanismos de adaptação da vida microbiana que podem ser encontrados em outros planetas e luas.