O recente aumento de tarifas imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros pode levar empresas a explorar novos mercados, visando reduzir a dependência do consumidor americano. Nesse cenário, a China, que é o principal destino das exportações brasileiras, surge como uma alternativa viável.

No entanto, especialistas acreditam que o país asiático deve absorver apenas uma fração das vendas que podem ser impactadas pelas tarifas americanas. A diferença entre os perfis de exportação do Brasil para os dois países e a capacidade industrial da China limitam uma transição rápida de mercados.

Exportações brasileiras e o perfil do mercado

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2022, o Brasil exportou US$ 99,94 bilhões para a China, um valor que supera mais do que o dobro das vendas para os EUA, que totalizaram US$ 37,7 bilhões. No primeiro semestre de 2026, as exportações para a China atingiram um recorde de US$ 58,32 bilhões, representando um crescimento de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.

No entanto, a China não se mostra como uma solução imediata para a maioria dos produtos afetados. Rodrigo Giraldelli, especialista em comércio Brasil-China, observa que as tarifas dos EUA incidem principalmente sobre produtos manufaturados, enquanto as importações chinesas do Brasil são concentradas em commodities, como soja e minério de ferro.

Desafios da dependência do mercado chinês

Atualmente, quase 90% das exportações brasileiras para a China são compostas por produtos agrícolas e minerais. Essa concentração reduz a capacidade de empresas que vendem bens industrializados aos EUA de redirecionar suas vendas para o mercado chinês. Wagner Pagliato, coordenador de cursos na Unicid, explica que a migração para a China ocorre apenas parcialmente e depende do setor.

Adicionalmente, a China impõe restrições próprias, como cotas tarifárias e exigências sanitárias, que dificultam a expansão das exportações brasileiras. Desde janeiro de 2026, a China aplica cotas de importação e sobretaxas sobre a carne bovina brasileira, estabelecendo uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas.

A economia chinesa, por sua vez, enfrenta desafios. No segundo trimestre de 2026, o PIB cresceu 4,3%, abaixo das expectativas, enquanto o país lida com uma crise no setor imobiliário e um consumo doméstico enfraquecido. Pagliato alerta que uma maior dependência do mercado chinês pode aumentar a vulnerabilidade do Brasil a uma eventual desaceleração da economia chinesa.

Apesar das dificuldades, especialistas veem oportunidades no novo direcionamento econômico da China. O 15º Plano Quinquenal (2026-2030) prioriza setores como inteligência artificial e biotecnologia, que podem aumentar a demanda por minerais críticos, abundantes no Brasil.

Os investimentos chineses no Brasil também têm crescido, totalizando US$ 6,1 bilhões em 2025. Vera Kanas, especialista em comércio internacional, destaca que o tarifaço pode acelerar a diversificação das exportações brasileiras e fortalecer negociações com parceiros comerciais.