Um peixe de apenas cinco centímetros, conhecido como bagrinho-de-kaetés e ameaçado de extinção, foi redescoberto em riachos da bacia do Rio Itapemirim, no Sul do Espírito Santo. A identificação ocorreu após mais de dez anos desde sua descoberta, utilizando uma técnica que analisa o DNA deixado pelos animais na água.
O bagrinho-de-kaetés foi encontrado em três dos dez pontos monitorados entre os municípios de Castelo e Vargem Alta, sem a necessidade de capturar exemplares da espécie. Um estudo com os resultados dessa análise foi publicado na revista científica Neotropical Ichthyology na última semana. A descoberta é vista como um passo importante para entender a distribuição do bagrinho e orientar ações de conservação da espécie e dos riachos da Mata Atlântica.
Uso de DNA ambiental para identificação
A técnica utilizada para a identificação do bagrinho-de-kaetés é conhecida como DNA ambiental, ou eDNA. De acordo com Juliana Paulo da Silva, pesquisadora do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e uma das autoras do estudo, todos os animais deixam vestígios genéticos no ambiente por onde passam. Esses rastros podem ser encontrados em células da pele, muco, escamas ou fezes, e permanecem na água por um tempo, possibilitando a identificação das espécies em laboratório.
Os cientistas coletaram apenas 180 mililitros de água em cada um dos pontos analisados. Juliana destacou que essa é uma quantidade pequena, mas suficiente para identificar uma comunidade inteira de organismos que habita o ambiente sem a necessidade de observar os animais diretamente. As análises foram realizadas em um laboratório da PUC Minas, referência nesse tipo de estudo.
Desafios para a sobrevivência da espécie
O bagrinho-de-kaetés foi descrito pela ciência em 2010, durante pesquisas na região que hoje abriga a Reserva de Kaetés, em Vargem Alta. Desde então, não havia registros da espécie até a recente redescoberta. Juliana afirmou que o peixe vive em áreas específicas das cabeceiras dos rios e é extremamente sensível a alterações ambientais, como poluição e desmatamento. Atualmente, apenas quatro locais são conhecidos por abrigar populações do bagrinho, com estimativas de 100 a 150 indivíduos em cada um deles.
A proximidade de espécies predadoras, como tilápias e bagres, em ambientes sem proteção, preocupa os pesquisadores. No entanto, a descoberta gerou um interesse na comunidade local pela preservação do habitat do bagrinho-de-kaetés. Os moradores de Vila Esperança, onde a espécie foi identificada, expressaram felicidade ao saber que o peixe recebeu o nome da reserva, e até realizaram pinturas do peixe em pontos de coleta de resíduos.
Embora o foco do estudo tenha sido o bagrinho-de-kaetés, as amostras de água também revelaram vestígios de outras 24 espécies de vertebrados, incluindo aves e mamíferos, demonstrando o potencial do DNA ambiental para monitorar a biodiversidade e auxiliar na conservação de espécies ameaçadas.
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