Golfinhos nariz-de-garrafa no Mar Adriático estão cada vez mais dependendo de arrastões para encontrar alimento, com filhotes aprendendo essa técnica com seus pais, conforme apontou um estudo recente. Giovanni Bearzi, coautor da pesquisa e presidente da Dolphin Biology and Conservation na Itália, destacou que atualmente a forma mais fácil de localizar esses golfinhos é observar os barcos pesqueiros. "Muitos deles são seguidos pelos golfinhos que forrageiam e se alimentam em sua esteira", explicou.
Bearzi detalhou que, ao se referir ao comportamento de forrageio, se inclui a alimentação em descartes e organismos indesejados. Os golfinhos estão seguindo os arrastões porque a presa natural está escassa, o que se deve à sobrepesca. "O Mar Mediterrâneo é uma das áreas com as maiores taxas de pesca no mundo. A pressão pesqueira na região é o dobro do nível considerado sustentável pela FAO [Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação]", acrescentou.
Aumento na Dependência de Arrastões
Os cientistas monitoraram arrastões no Adriático por 148 dias, realizando 859 inspeções em duas regiões e diferentes tipos de barcos. Embora o comportamento de golfinhos seguindo barcos pesqueiros não seja novo, a pesquisa indicou um aumento significativo na frequência desse ato. Uma pesquisa realizada na década de 1990 constatou que 10% dos arrastões eram seguidos por golfinhos; no estudo atual, em uma das áreas analisadas, esse número subiu para 76%.
O estudo sugere que muitos animais com presas esgotadas começam a buscar alimento próximo a humanos, como ursos polares que reviram lixões. Para os golfinhos, os arrastões podem representar uma fonte simples de alimento em um ecossistema empobrecido.
Consequências da Mudança de Comportamento
Apesar de os golfinhos serem animais altamente oportunistas e terem aprendido que é mais fácil capturar peixes na esteira de um arrastão, isso não implica que essa nova estratégia seja vantajosa. Dr. Randall Reeves, um dos autores do estudo e presidente do Comitê de Consultores Científicos da Comissão de Mamíferos Marinhos dos EUA, alertou que golfinhos podem ser ocasionalmente feridos ou mortos por equipamentos de arrasto, além de que forragear atrás dos barcos pode impactar sua dieta, organização social e comunicação. "Golfinhos também podem sofrer danos auditivos resultantes da exposição crônica ao barulho dos arrastões. Contudo, encontrar presas suficientes longe dos barcos em um mar sobrepescado pode ser extremamente difícil", completou.
Bearzi também mencionou que os filhotes seguem os arrastões com suas mães, observando os adultos em busca de alimento e aprendendo esse comportamento culturalmente. Ele destacou que o ecossistema do Adriático costumava abrigar muitos golfinhos comuns, que agora praticamente desapareceram, exceto em poucos pontos específicos.
Os cientistas pedem ações para proteger a biodiversidade marinha e recomendam a redução do uso de arrastões. Bearzi enfatizou que, se a pesca destrutiva for interrompida, os recursos marinhos se recuperariam rapidamente, permitindo que os golfinhos voltassem a se alimentar de suas presas naturais.
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