Pesquisadores conseguiram desvendar segredos ocultos por duzentos anos em uma carta náutica elaborada para navegadores do século XVIII que transitavam pelo Mar Vermelho e pelo Golfo de Aden. Este documento, um rolo de papel, evidencia que as comunidades marítimas da região utilizavam um sistema de navegação próprio, que facilitou o comércio e a troca entre a Índia, a Arábia e o Chifre da África durante a era das velas, antes da adoção de métodos de navegação mais abstratos e baseados em instrumentos.

A carta, que faz parte da coleção da Royal Geographical Society há 189 anos, é uma das mais detalhadas cartas náuticas indígenas sobreviventes, produzidas na tradição do Oceano Índico. O novo estudo revela que o documento servia como uma eficaz aide mémoire, refletindo o conhecimento profundo dos marinheiros da moderna Gujarat, na Índia. Assim, a carta se torna uma janela para as práticas de navegação indígenas das comunidades que habitam o oeste do Oceano Índico.

Decifrando o mapa antigo

Pela primeira vez, os pesquisadores conseguiram identificar e interpretar os nomes de lugares e dados astronômicos inscritos no mapa, estabelecendo latitudes e fornecendo direções de navegação que demonstram um conhecimento local íntimo. O documento não foi apenas projetado para facilitar o trânsito de longa distância para os principais portos do Mar Vermelho.

Datada do final do século XVIII ou início do século XIX, a carta apresenta belíssimas imagens de navios e edifícios religiosos. Ela foi adquirida em 1835 por Alexander Burnes, um oficial da East India Company, de um capitão de mar não identificado em Kachchh. Burnes doou o mapa à Royal Geographical Society, mas ele e outros estudiosos não conseguiram traduzi-lo e analisá-lo de forma tão abrangente quanto o estudo atual.

Limitações de análises anteriores

As análises anteriores, realizadas em 1947, 1987, 2002, 2012 e 2022, não conseguiram reconhecer as potencialidades de navegação da carta. Aproximadamente metade dos nomes de lugares em Devanagari ainda não haviam sido identificados e a maioria dos estudiosos europeus que avaliaram a carta alegaram incorretamente que não havia informações de latitude ou longitude. Além disso, consideraram a falta de um ângulo real do Mar Vermelho e do Golfo de Aden como uma limitação, quando, na verdade, isso torna a carta mais portátil.

Os especialistas agora produziram uma projeção da carta que apresenta suas informações de forma espacial, semelhante aos mapas modernos. O cartógrafo responsável pelo documento representou mais de 180 ilhas, além de recifes e outros marcos, como edifícios religiosos e bandeiras.

O professor John Cooper, da Universidade de Exeter, que liderou a pesquisa, destacou que a carta, apesar de não parecer precisa segundo os padrões modernos, permitiu que marinheiros experientes navegassem por algumas das águas mais desafiadoras do mundo. O documento, com apenas 25 cm de largura, era fácil de manusear a bordo de um navio.

A gestora de Coleções Cartográficas da Royal Geographical Society, Dra. Katherine Parker, ressaltou a importância de reexaminar as coleções para descobrir o valor cultural e geográfico de artefatos como essa carta.