A morte do ator Sam Neill, ocorrida na segunda-feira (13), reacendeu discussões sobre a chamada 'necromancia digital', termo que se refere à recriação de pessoas falecidas por meio de inteligência artificial. Conhecido pelo papel do paleontólogo Alan Grant em 'Jurassic Park', Neill foi representado em imagens e vídeos que o retratam como um fantasma em meio a dinossauros, gerando reações diversas na internet.

Esse fenômeno não é novo, tendo se manifestado anteriormente, como no caso do fisiculturista Gabriel Ganley, que faleceu aos 22 anos em maio. Vídeos criados por IA mostraram sua 'chegada ao céu' em uma 'academia nas nuvens', levantando questionamentos sobre a manipulação da imagem de pessoas mortas.

Necromancia Digital

A necromancia, tradicionalmente associada à comunicação com os mortos, assume uma nova dimensão no contexto digital, onde vozes, imagens e traços de personalidade de falecidos são manipulados para criar conteúdos com IA. A prática, embora vista como uma forma de homenagem, suscita controvérsias sobre a ética do uso de tais tecnologias.

A professora Elaine Kasket, da Universidade de Bath, no Reino Unido, e autora do livro 'All the Ghosts in the Machine', destaca que a criação de avatares não requer mais habilidades técnicas avançadas, facilitando a produção de 'grief bots' ou 'robôs de luto'. Esses robôs permitem que familiares interajam com versões digitais de entes queridos falecidos, mas também podem distorcer a memória dessas pessoas, como apontou Flávia Christina, filha de Pelé, ao criticar a utilização de imagens do pai em vídeos gerados por IA.

Regulação e Ética

No Brasil, um dos casos mais comentados ocorreu em 2023, quando a Volkswagen utilizou IA para criar um dueto entre Elis Regina, morta há 44 anos, e sua filha, Maria Rita. A campanha gerou polêmica e levou o Conar a abrir uma investigação para verificar possíveis violações ao Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. Além disso, um projeto de lei que visava estabelecer diretrizes para o uso de imagens de falecidos foi arquivado.

Kasket alerta que a regulamentação sobre o uso de IA em homenagens póstumas avança lentamente, colocando figuras públicas sob risco de serem manipuladas por interesses comerciais. Ela sugere a criação de um modelo de direitos da personalidade que proteja a imagem de pessoas falecidas, limitando o uso de seus 'restos digitais'. Kasket já incluiu uma cláusula em seu testamento para evitar que sua imagem seja utilizada de forma não autorizada.

A exploração de familiares também é uma preocupação crescente. O setor de 'grief tech' tem visto o surgimento de empresas que criam versões virtuais de falecidos, permitindo interação com esses avatares. Casos como o do jornalista Jim Acosta, que entrevistou um avatar de Joaquin Oliver, um jovem morto em um massacre escolar, exemplificam essa nova realidade.

A complexidade do luto torna difícil prever como essas inovações tecnológicas impactarão aqueles que enfrentam a perda. Kasket enfatiza que o luto não é uma patologia que deve ser 'resolvida', mas uma parte essencial da experiência humana, e a tentativa de 'plataformizar' essa experiência pode ser prejudicial ao processo natural de luto.