A morte do ator britânico e neozelandês Sam Neill, ocorrida nesta segunda-feira (13), trouxe à tona um fenômeno controverso: a utilização de inteligência artificial para criar imagens e vídeos do artista após seu falecimento. Neill, famoso por seu papel como o paleontólogo Alan Grant na franquia "Jurassic Park", foi retratado em cenários como um fantasma entre dinossauros, gerando reações mistas nas redes sociais.

Esse tipo de homenagem digital não é novo. Em maio, após a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, também surgiram vídeos que mostravam sua "chegada ao céu" em uma "academia nas nuvens". Essas criações têm sido classificadas como parte da "necromancia digital", termo que descreve a manipulação de vozes e imagens de pessoas falecidas para gerar novos conteúdos.

O debate sobre ética e memória

A prática de recriar digitalmente pessoas que já faleceram levanta questões éticas significativas, como a possibilidade de transformar o luto em um produto e a criação de "fantoches digitais". Segundo Elaine Kasket, professora de psicologia da Universidade de Bath e autora do livro "All the Ghosts in the Machine: The Digital Afterlife of Your Personal Data", a falta de regulamentação adequada pode expor figuras públicas a interesses comerciais e políticos.

Essa preocupação é compartilhada por Flávia Christina, filha do ícone do futebol Pelé, que expressou desconforto com a representação digital de seu pai, afirmando que os vídeos não retratam suas atitudes habituais. A crítica destaca a dificuldade de preservar a memória de pessoas falecidas em meio a um uso indiscriminado da tecnologia.

Casos notáveis e regulamentação insuficiente

O uso de inteligência artificial para recriar figuras públicas não se limita a homenagens. Em 2015, cenas do ator Paul Walker em "Velozes e Furiosos 7" foram completadas com a ajuda de computação gráfica, e em 2016, Peter Cushing foi digitalmente ressuscitado em "Rogue One: Uma História Star Wars". Mais recentemente, a Volkswagen gerou polêmica ao usar IA para criar um dueto entre Elis Regina e sua filha, Maria Rita, levantando questões sobre os limites éticos dessa prática.

O Conar, órgão regulador da publicidade no Brasil, chegou a investigar a campanha da montadora. Embora um projeto de lei tenha sido proposto para regular o uso de imagens e áudios de falecidos, tanto a proposta quanto a investigação foram arquivadas, revelando a lentidão na criação de diretrizes que protejam a privacidade dos cidadãos.

Kasket sugere a necessidade de um modelo de direitos da personalidade que se estenda além da morte, limitando o uso de restos digitais. Ela mesma adotou precauções pessoais, incluindo uma cláusula em seu testamento que proíbe a transformação de sua imagem em um robô, embora essa medida não tenha respaldo legal no Reino Unido.

Além das implicações éticas, a chamada "tecnologia do luto" permite a criação de versões digitais de falecidos para interação dos familiares, o que também levanta preocupações sobre a exploração emocional. A experiência do luto é única para cada pessoa, e o uso de tecnologia para "resolver" essa experiência pode ser prejudicial ao processo de luto.