O faturamento das empresas de ônibus interestaduais regulares apresentou uma redução de 8,2% nos últimos três anos, totalizando R$ 6,15 bilhões em 2025. Essa queda contrasta com o crescimento de 8,9% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no mesmo período.
Dados da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) revelam que o número de passageiros também diminuiu. Em comparação com o pico de 43,1 milhões de passageiros no pós-pandemia, registrado em 2023, o volume caiu para 40,6 milhões em 2024 e para 36,7 milhões em 2025, representando uma queda de 14,8%.
Curiosamente, a redução no número de passageiros ocorreu apesar do aumento contínuo nas viagens realizadas. O total de viagens saltou de 1,54 milhão em 2023 para 1,66 milhão em 2024, alcançando 1,69 milhão em 2025, segundo a ANTT.
As operadoras justificam o aumento no preço das passagens pela alta nos custos operacionais e administrativos. A combinação da elevação de tarifas e a redução de passageiros indica uma limitação financeira no acesso ao transporte rodoviário, que é o principal meio de locomoção para as classes C, D e E, que representam 80% da população brasileira.
Contexto e embates regulatórios
A má performance do setor coincide com um cenário de interrupções na regulação do mercado rodoviário. A implementação do regime de autorizações está pendente há 12 anos devido a entraves burocráticos e judiciais.
A ANTT enfrenta atrasos e suspensões na condução da “Janela Extraordinária”, um processo para selecionar empresas e abrir novas rotas no mercado interestadual. A falta de concorrência impacta cerca de 81 rotas de ônibus estratégicas.
Esse tema foi discutido em uma reunião da FPE (Frente Parlamentar do Empreendedorismo) em 19 de maio. O governo atribuiu a lentidão do processo a cortes de verbas na infraestrutura tecnológica da agência, mas essa justificativa foi questionada quando a base de dados começou a processar pedidos logo após a liberação de recursos.
Em maio de 2026, a ANTT suspendeu a validação de várias rotas, alegando riscos operacionais, mas revogou a suspensão em 8 de junho, após pressão do MPF (Ministério Público Federal). Recentemente, o STF (Supremo Tribunal Federal) determinou a suspensão do trâmite da 1ª Janela Extraordinária, travando a liberação de 47 mil mercados.
Desertos de atendimento e penalidades
A falta de regulação afeta diretamente a cobertura geográfica do serviço. Em 2025, 3.386 municípios, o que representa 60,8% do total de 5.570 cidades do Brasil, não tinham atendimento direto de ônibus interestadual.
Em São Paulo, 64,8% das cidades estão desassistidas, enquanto em Minas Gerais esse percentual é de 57,4%. No Rio Grande do Sul, a situação é ainda mais crítica, com 77,5% dos municípios sem atendimento.
Atualmente, 176 transportadoras operam no setor regular, uma redução em relação a 186 do ano anterior. Devido à instabilidade regulatória, 25 mil trechos funcionam apenas por decisões judiciais. A Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia) aponta que a burocracia da ANTT dificulta a modernização e a entrada de novos negócios.
O novo marco de penalidades da ANTT, que entrará em vigor em agosto de 2026, também preocupa o setor, pois prevê apreensões físicas em vez de sanções graduais, o que pode desencorajar investimentos e perpetuar o isolamento das cidades sem atendimento.
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