No contexto da transformação do mercado automotivo brasileiro, o fim da produção do Corolla em Indaiatuba (SP) e o início da fabricação de veículos eletrificados pela GWM em Iracemápolis (SP) marcam um novo capítulo na indústria. Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e levantamento do g1 indicam que o Brasil não está perdendo fábricas, mas redefinindo seu perfil industrial.

A mudança, acentuada após a pandemia, envolve a substituição de fábricas deixadas por montadoras tradicionais por unidades focadas na eletrificação. Exemplos incluem a fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis, agora operada pela chinesa GWM, e as instalações da Ford em Camaçari (BA) e Horizonte (CE), que passaram a ser utilizadas pela BYD e MG Motor, respectivamente.

Crescimento e Mudança de Perfil no Setor Automotivo

Conforme a Anfavea, a produção nacional de veículos deve aumentar de 2,36 milhões em 2022 para 2,64 milhões em 2025. Apenas no primeiro semestre de 2026, já foram produzidas 1,37 milhão de unidades. O segmento de veículos eletrificados, que inclui híbridos e elétricos, está se consolidando como um dos principais motores do mercado.

Em 2016, as vendas de veículos eletrificados no Brasil somaram pouco mais de mil unidades. Em contraste, no primeiro semestre de 2026, esse número ultrapassou 215 mil, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). As montadoras chinesas, como BYD e GWM, agora lideram o mercado, enquanto a Toyota, que dominava anteriormente, caiu para o terceiro lugar.

Desafios e Reações da Indústria Local

O crescimento acelerado das marcas chinesas tem gerado preocupações na indústria automotiva brasileira. A Anfavea expressou apreensão em relação ao aumento das importações, que saltaram de 71 mil para 140 mil unidades em um ano. Além disso, a associação critica o modelo de montagem de veículos por meio de kits semidesmontados, o que reduz a necessidade de mão de obra e pode ameaçar a cadeia produtiva nacional.

O governo brasileiro, por sua vez, anunciou a renovação temporária das cotas de importação, alinhando-se a ações de renovação da frota e descarbonização. A Anfavea defende que os novos investimentos sejam direcionados à produção completa no país, visando proteger não apenas as montadoras, mas também a cadeia de suprimentos local.

Segundo o economista José Eduardo Roselino, da Universidade Federal de São Carlos, a indústria automotiva está passando por uma transformação sem precedentes, com a transição para veículos mais eficientes e a crescente presença de montadoras chinesas. Ele ressalta que a capacidade de produção em larga escala das empresas chinesas e o domínio de tecnologias avançadas conferem a elas uma vantagem competitiva significativa.