O debate sobre os riscos cardíacos entre fisiculturistas ganhou nova força após a morte de Mailson Araújo, de 35 anos, em 13 de julho. Assim como Dallas McCarver, que faleceu em agosto de 2017, Araújo passou mal em casa, levantando preocupações sobre a saúde cardiovascular de atletas que utilizam substâncias para aumentar a massa muscular.
A necropsia de McCarver revelou um coração com peso de 833 gramas, mais do que o dobro do normal para um homem adulto, além de um espessamento do ventrículo esquerdo e acúmulo de gordura nas artérias. A médica legista que analisou seu caso concluiu que o uso prolongado de anabolizantes esteroides foi um fator crucial para sua morte, com níveis de testosterona sintética mais de 30 vezes acima do normal.
Aumento do risco de morte súbita
Casos como o de McCarver não são isolados. A morte de Gabriel Ganley, de 22 anos, em maio deste ano, e de Edson da Silva Ferreira, de 40 anos, em julho do ano passado, destaca um padrão preocupante. Um estudo publicado no European Heart Journal, que acompanhou mais de 20 mil fisiculturistas ao longo de 16 anos, revelou que a taxa de morte súbita cardíaca entre atletas profissionais é cinco vezes maior do que entre amadores. Entre os competidores do Mr. Olympia, a taxa é de sete mortes a cada cem atletas, com uma idade média de 36 anos.
Distinções entre adaptações e doenças
O cardiologista Luiz Eduardo Fonteles Ritt, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia na Bahia, explica que existem dois tipos de aumento do coração em atletas de força. O primeiro é uma resposta fisiológica ao treinamento intenso, que geralmente regride após a interrupção dos exercícios. O segundo, associado ao uso de anabolizantes, pode levar a uma dilatação do coração e à insuficiência cardíaca, que pode se tornar irreversível.
Rodrigo Góes, ex-fisiculturista que hoje defende a conscientização sobre os riscos do uso de anabolizantes, compartilha sua experiência. Ele relata que, mesmo sob supervisão médica e com doses consideradas seguras, enfrentou efeitos colaterais significativos, incluindo problemas psicológicos. Segundo ele, não existe uma forma segura de usar essas substâncias, e qualquer uso acarretará danos.
Estudos recentes corroboram essas preocupações. Um estudo na Frontiers in Cardiovascular Medicine analisou laudos de necropsia de fisiculturistas falecidos, revelando corações com pesos significativamente acima da média e obstruções nas artérias. A cardiomiopatia hipertrófica, que pode ser causada tanto por fatores genéticos quanto pelo uso de esteroides, é uma condição frequentemente observada em atletas que faleceram subitamente.
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