O sambista Antonio Candeia Filho, mais conhecido como Candeia (1935 – 1978), é tema do livro 'Candeia – O samba, o Quilombo e o ativismo negro', escrito pelo pesquisador norte-americano Stephen Bocskay e lançado recentemente no Brasil pela editora Malê. A obra se propõe a aprofundar a compreensão sobre a ideologia e o legado desse artista, além de questionar a imagem de policial severo e truculento que o acompanhou.

Candeia, que foi baleado em 1965, teve sua vida e carreira drasticamente alteradas após o incidente, que o deixou em uma cadeira de rodas. Apesar das dificuldades, ele se destacou como compositor e militante, criando canções icônicas como 'Dia de graça' e 'Filosofia do samba'. O livro, mais um ensaio antropológico do que uma biografia, traz à tona as tensões entre sua identidade como sambista e sua profissão como policial.

Segundo Bocskay, a fama de Candeia como um policial truculento pode ter sido distorcida. A filha do sambista, Selma Candeia, afirmou que essa imagem foi alimentada por expectativas de conivência com infrações nas comunidades que patrulhava. No entanto, a obra destaca seu ativismo ao fundar o grêmio recreativo de arte negra e a escola de samba Quilombo, que se opunha à comercialização do Carnaval.

A narrativa também revela a resistência de Candeia ao movimento Black Rio, que promovia a música negra norte-americana entre os jovens cariocas nos anos 1970. Embora defensor das tradições do samba, Bocskay propõe que a discografia de Candeia apresenta diálogos com a soul music e a música afro-cubana.

Com entrevistas de personalidades do samba e referências a sua trajetória, o livro não endeusa Candeia, mas destaca a relevância de sua militância na construção da consciência negra no Brasil.