Imagem gerada por IA para o Canal Rural Desde que afirmei que as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil tinham uma motivação que ia além da simples negociação comercial, recebi inúmeras críticas. Muitos insistiram na tese de que o Brasil foi punido porque “não soube negociar”. Escrevo este artigo justamente para responder a essa interpretação.

Não para alimentar uma disputa político-partidária, mas porque considero um erro analisar um tema estratégico para o país apenas pelo prisma da polarização política. Quando interesses nacionais estão em jogo, o debate precisa ser guiado pelos fatos, e não pela torcida. Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!

O caso do Canadá oferece um excelente exemplo. Donald Trump decidiu impor uma tarifa de 50% a um dos maiores aliados históricos dos Estados Unidos. Nem os aliados foram poupados O Canadá mantém uma relação econômica, política e militar construída ao longo de décadas com os americanos.

Os dois países compartilham uma das maiores fronteiras terrestres do mundo, integram alianças estratégicas e possuem cadeias produtivas profundamente interligadas. Ainda assim, nada disso foi suficiente para impedir a tarifa. Então, fica a pergunta: o Canadá também não soube negociar?

É evidente que essa explicação não se sustenta. A tarifa mudou de função Na prática, as tarifas de Trump cumprem funções que vão muito além da proteção da indústria americana. Elas são usadas como instrumento de pressão, de barganha, de imposição de interesses e de afirmação de poder.

Primeiro, cria-se o problema. Depois, exige-se uma concessão para resolvê-lo. A tarifa deixa de ser apenas um imposto sobre produtos importados e passa a funcionar como uma ferramenta de pressão política e geopolítica.

O Brasil entrou nesse tabuleiro Foi exatamente o que ocorreu com o Brasil. Uma interpretação possível é que o país passou a integrar uma disputa mais ampla de interesses, influência e poder, e não apenas um conflito comercial restrito às negociações bilaterais. Reduzir toda essa questão à ideia de que “o Brasil não soube negociar” significa ignorar a forma como a política comercial americana vem sendo utilizada em sua estratégia internacional.

Negociar é buscar acordos. Submeter-se é aceitar qualquer exigência para evitar uma punição. O Canadá serve de resposta É claro que o Brasil deve negociar.

Deve dialogar, defender seus interesses e buscar caminhos para reduzir prejuízos. Mas é preciso compreender que, em determinadas situações, a tarifa já chega com um objetivo definido: pressionar o país atingido e extrair dele algum tipo de concessão. O caso canadense deixa isso evidente.

Se até um dos maiores aliados dos Estados Unidos recebeu uma tarifa de 50%, fica difícil continuar sustentando que o problema do Brasil foi meramente uma falta de habilidade negocial. As tarifas de Donald Trump deixaram de ser apenas uma ferramenta de comércio. Transformaram-se, cada vez mais, em um instrumento de poder, pressão e geopolítica.

* Miguel Daoud  é comentarista de Economia e Política do Canal Rural O  Canal Rural  não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores.