A aproximação da Venezuela com Israel representa uma estratégia da administração de Delcy Rodriguez, que busca garantir apoio dos Estados Unidos em meio a um cenário político complexo na América Latina. Seis meses após a saída de Nicolás Maduro, a ex-vice-presidente assumiu o cargo de presidente interina, posicionando-se como uma parceira mais manejável para Washington.
Rodriguez enfrenta o desafio de alinhar-se aos interesses dos EUA sem perder o controle em seu país. Para isso, seus conselheiros estão reformulando um movimento que antes se baseava na política socialista de Hugo Chávez e Maduro para um enfoque mais pragmático e transacional, alinhado com a nova ordem hemisférica.
Ruptura com o passado e nova abordagem
A mudança na postura da Venezuela em relação a Israel é um dos aspectos mais evidentes dessa nova estratégia. Durante os mandatos de Chávez e Maduro, o governo venezuelano considerava Israel um “estado genocida” e um “inimigo da paz”, rompendo relações diplomáticas em 2009 e aprofundando laços com o Irã, rival regional de Israel.
No entanto, Rodriguez tem buscado reestabelecer relações com o governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Em fevereiro, seu governo surpreendeu ao evitar condenações diretas a Washington ou Tel Aviv sobre ataques aos interesses iranianos, optando por uma declaração que pedia diálogo e criticava a retaliação do Irã.
Em abril, a presidente interina fez um aceno à comunidade judaica na Venezuela, enviando cumprimentos pela Páscoa e enfatizando a ausência de posições antissemitas por parte do governo. As consequências dos terremotos que atingiram o país em junho também foram utilizadas para avançar essa aproximação, quando a Venezuela agradeceu publicamente a Israel pelo envio de uma equipe de resposta a desastres, marcando um contato de alto nível entre os dois países.
Estratégia política e alianças
A nova postura em relação a Israel faz parte de uma estratégia calculada para consolidar o poder de Rodriguez. Essa estratégia é impulsionada por pressões internas e externas. A presidente interina busca alinhar-se com a política externa dos EUA para garantir o apoio de Donald Trump, enquanto também se afasta de adversários tradicionais de Washington, como o Irã e Hezbollah.
Além disso, a rivalidade política com Maria Corina Machado, uma figura de oposição que construiu laços com Israel, também motiva a busca por apoio israelense. Se Rodriguez conseguir conquistar a confiança de Netanyahu, poderá minar a base de apoio de Machado, tanto internacionalmente quanto em Washington, onde redes de lobby pró-Israel exercem influência significativa.
Essa aproximação entre Venezuela e Israel, portanto, é parte de uma estratégia deliberada para fortalecer o governo atual, enfraquecer a oposição e tranquilizar Washington sobre o distanciamento de aliados considerados hostis. Embora essa estratégia tenha até agora rendido frutos, a viabilidade de um novo relacionamento com Israel, após décadas de retórica anti-Israel, permanece incerta.
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