A guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã está provocando uma reavaliação nas prioridades de segurança e econômicas dos governos africanos. As primeiras consequências já podem ser vistas em mercados de petróleo, rotas de transporte e incertezas financeiras, com impactos que vão além do Oriente Médio.

À medida que a incerteza sobre alianças globais e cadeias de suprimento aumenta, muitos países africanos enfrentam novos riscos, especialmente aqueles que já lidam com conflitos, dívidas e economias frágeis. No entanto, essa crise também está acelerando discussões sobre como fortalecer a capacidade energética interna, diversificar parcerias e reduzir a dependência de potências externas.

Um cenário geopolítico em transformação

As parcerias externas da África estão passando por um período de ajustes. Com potências globais enfrentando prioridades de segurança conflitantes, os governos africanos estão reconsiderando suas estratégias de investimento, opções de financiamento e laços diplomáticos. Segundo analistas, essa desordem também pode representar uma oportunidade para os estados africanos diversificarem suas fontes de financiamento e fortalecerem instituições regionais.

O papel do Irã na África está sendo analisado à luz dessas dinâmicas em mudança. Teerã busca expandir seu engajamento político e de segurança em partes do continente, especialmente à medida que as relações entre alguns governos africanos e parceiros ocidentais se deterioram. Contudo, analistas alertam que um confronto prolongado pode afetar a capacidade do Irã de financiar e sustentar parcerias no exterior.

Desafios de segurança e energia

O Sudão exemplifica como essas mudanças geopolíticas se manifestam no terreno. O país se tornou um ponto focal para a competição entre potências regionais, e sua guerra civil está sendo moldada por alianças externas, redes de suprimento e rivalidades no Mar Vermelho. Leena Badri, pesquisadora sudanesa, afirmou que as expectativas de um avanço diplomático foram mal colocadas. “A guerra no Irã não aproximou a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, mas, ao contrário, aprofundou sua rivalidade sobre o Sudão”, disse.

Além disso, a crise expõe a vulnerabilidade da África a interrupções em rotas marítimas essenciais. O Estreito de Ormuz, vital para as exportações globais de petróleo, e os ataques no Mar Vermelho desde 2023 têm comprometido o transporte comercial, aumentando os custos e incertezas econômicas para países que dependem de combustíveis importados.

A analista Aaliyah Vayez destacou que a crise do Hormuz evidencia a necessidade de fortalecer a capacidade interna e diversificar parcerias. A expansão da capacidade de refino é vista como uma prioridade estratégica, especialmente à medida que a África exporta a maior parte de seu petróleo bruto, mas importa uma grande parte de seus produtos refinados.

O refinário de Dangote, na Nigéria, é um exemplo positivo, com capacidade de 650.000 barris por dia, que pode reduzir a dependência de combustíveis importados e fortalecer a segurança energética local. No entanto, muitos países da África Oriental e do Sul continuam vulneráveis a interrupções no Estreito de Ormuz, levando a discussões sobre a expansão da capacidade de refino na região.

Essas mudanças sugerem que a crise pode acelerar transformações já em curso, expondo fraquezas nos sistemas energéticos e nas redes de logística da África, enquanto pressiona os governos a buscar reformas de longo prazo.