Um estudo recente indica que 86% das crianças e adolescentes que enfrentam dores significativas nos ossos, ligamentos ou músculos conseguem se recuperar em um período de 18 meses. Apesar desse dado positivo, a pesquisa ressalta a necessidade de monitoramento contínuo, uma vez que cerca de 32% dos pacientes que apresentam melhora podem voltar a sentir dor em algum momento.

A pesquisa foi conduzida com 694 jovens e publicada em março no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. Essa condição, popularmente chamada de "dor de crescimento", afeta aproximadamente 30% das crianças e adolescentes brasileiros, embora não tenha relação com traumas ou esforços repetitivos. As dores são suficientemente intensas para resultar em faltas escolares e na interrupção de atividades cotidianas e de lazer.

Importância do acompanhamento contínuo

Tiê Parma Yamato, pesquisadora associada da Unicid (Universidade Cidade de São Paulo) e da Universidade de Sydney, que coordenou o estudo, destaca que a dor musculoesquelética ainda é um tema pouco estudado. "É uma dor muito subestimada, o que leva a um tratamento inadequado e à desvalorização das queixas por parte de familiares e do sistema de saúde. É essencial não apenas esperar que a dor passe", afirma.

O estudo também revelou que a qualidade de vida e a idade são fatores determinantes para a recuperação. "Crianças mais novas e com melhor qualidade de vida têm maior probabilidade de melhora espontânea. À medida que se tornam adolescentes, essa probabilidade diminui, reforçando a necessidade de intervenções precoces", explica Yamato.

Consequências a longo prazo

Yamato ressalta que dores persistentes na infância e adolescência podem ser um indicativo de problemas de saúde na vida adulta. "Compreender o desenvolvimento dessas dores é crucial para identificar aqueles que necessitam de atenção precoce, evitando futuras condições crônicas", afirma.

A especialista aponta que a dor crônica, como a lombar, representa um dos maiores desafios de saúde global, gerando custos elevados para os sistemas de saúde pública. "Tratar a dor na infância pode ajudar a mitigar esses impactos econômicos e sociais no futuro", conclui.

Metodologia da pesquisa

O estudo, patrocinado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), é pioneiro na análise do prognóstico da dor musculoesquelética em crianças e adolescentes. A pesquisa envolveu 12.036 jovens de escolas públicas e privadas em Fortaleza e São Paulo, dos quais 2.688 (com idade média de 12 anos) participaram. Eles responderam a um questionário sobre a presença de dor que impactasse suas vidas diárias, e 694 foram acompanhados por 18 meses.

As costas foram a parte do corpo mais frequentemente afetada, citada por 51,3% dos participantes, seguidas pelas pernas (42,5%) e pescoço (20,5%). "A dor pode ocorrer em qualquer articulação, osso ou músculo", observa Yamato.

Desmistificando a dor de crescimento

A dor musculoesquelética em jovens é muitas vezes considerada um mito, sendo frequentemente rotulada como "dor de crescimento" sem evidências científicas que sustentem essa associação. "Não há comprovação de que os estirões de crescimento causem dor", alerta a pesquisadora.

Yamato enfatiza que essa má interpretação pode levar à crença de que a dor desaparecerá naturalmente, desconsiderando o acompanhamento necessário. "Por isso, é crucial que os profissionais de saúde avaliem a qualidade de vida dos jovens, indo além da análise física da dor e considerando seu contexto emocional e familiar", conclui.