Jens Spahn, presidente da bancada do partido conservador CDU no parlamento alemão, anunciou sua renúncia ao cargo no último sábado, em meio a uma polêmica sobre o uso de uma mãe substituta, prática atualmente proibida na Alemanha.

Em carta dirigida a seus colegas, Spahn afirmou: "Nos últimos dias, percebi que minha felicidade pessoal ao iniciar uma família com meu marido e me tornar pai é incompatível com meu cargo político."

Polêmica sobre gestação de substituição

Recentemente, Spahn e seu marido revelaram que se tornaram pais com a ajuda de uma mãe substituta nos Estados Unidos. Em entrevista ao tabloide alemão BILD, ele expressou a dificuldade de descrever a sensação de paternidade: "Meu marido se tornou pai, e eu também. Georg é nosso mundo inteiro."

A revelação gerou um intenso debate político, uma vez que a gestação de substituição é proibida na Alemanha. O processo envolve uma mulher que carrega e dá à luz uma criança para um casal ou indivíduo, geralmente sendo remunerada por isso. O CDU, partido de Spahn, é fortemente contrário à legalização dessa prática no país.

Em fevereiro, a legenda reafirmou sua posição em convenção federal, destacando preocupações éticas, legais e práticas. O documento afirmava que a CDU demanda que a gestação de substituição, mesmo em modelos altruístas, permaneça proibida para evitar abusos e riscos à saúde.

Críticas e acusações de dupla moral

Spahn, ex-ministro da Saúde da Alemanha, estava presente na convenção quando uma mãe substituta nos EUA já estava grávida do filho de seu marido, Daniel Funke. Embora a prática não seja ilegal nos EUA, na Alemanha, apenas médicos e intermediários envolvidos podem ser processados. Criar uma criança nascida no exterior de uma mãe substituta é permitido.

Ao longo de sua carreira, Spahn criticou a gestação de substituição. Em 2015, declarou à revista GQ que, como homem gay e cristão, tinha dificuldades em aceitar a ideia de um "útero alugado". Em 2020, quando era ministro da Saúde, ele se opôs a uma proposta da oposição para debater a liberalização das leis sobre gestação de substituição, argumentando que isso poderia gerar "dificuldades particulares na identidade da criança". Agora, enfrenta acusações de hipocrisia.

Daniel Peters, líder da CDU na região de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, pediu a renúncia de Spahn, afirmando que ele não é mais aceitável como presidente do grupo parlamentar da União. Segundo Peters, ao usar uma mãe substituta, Spahn desrespeitou a lei vigente na Alemanha.

O presidente da organização de idosos da CDU, Hubert Hüppe, expressou seu choque, afirmando que a gestação de substituição é corretamente proibida no país. A oposição também criticou a situação, com a porta-voz dos assuntos femininos do Partido de Esquerda, Kathrin Gebel, afirmando que padrões políticos devem se aplicar à vida pessoal. O porta-voz de saúde dos Verdes, Janosch Dahmen, acusou Spahn de dupla moral.

Aos 46 anos, Spahn já enfrentou vários escândalos, incluindo a compra superfaturada de máscaras durante a pandemia de COVID-19, um caso que ainda o persegue, embora continue a ter influência política.