O Supremo Tribunal da Gâmbia está prestes a decidir sobre a proibição da mutilação genital feminina (FGM) nesta quarta-feira, 17 de outubro, e mães expressam preocupação de que a lei possa ser enfraquecida. Para as sobreviventes, a decisão pode determinar se suas filhas continuarão protegidas por lei ou se enfrentarão o mesmo trauma que elas vivenciaram.
Em Wellingara, um vilarejo gambiano, meninas brincam despreocupadas em um pátio de areia, enquanto Mariama Jabbie observa debaixo de uma árvore. Ela tem duas filhas, de seis e nove anos, idades que coincidem com a sua quando foi submetida à prática. Embora não se lembre claramente daquele dia, a dor permanece com ela quase três décadas depois.
Medos persistentes
Aos 28 anos, Mariama revela que a FGM moldou cada fase de sua vida, e a dor se estende além do procedimento, influenciando sua vida adulta, casamento e maternidade. O medo de que suas filhas possam passar pela mesma experiência se intensificou após a morte de um bebê de três meses em um procedimento clandestino próximo à sua casa.
“Estou sempre em alerta”, disse Mariama à Al Jazeera. “Temo que um parente leve minhas filhas sem meu conhecimento. Sob nenhuma circunstância deixarei que minhas filhas passem pelo que eu passei.”
Esse temor é compartilhado por outras mães, como Binta Jawo, de 30 anos, que também foi submetida à FGM na infância e agora busca proteger sua filha de sete anos da prática. “Foi muito doloroso”, recorda. “Não posso imaginar permitir que minha filha passe por algo que sei que é prejudicial.”
Desafios legais e sociais
A questão que o Supremo Tribunal enfrenta tornou-se um dos desafios constitucionais mais significativos da Gâmbia, reabrindo um debate sobre religião, cultura e direitos das mulheres. Em 2024, o parlamento rejeitou uma tentativa de revogar a lei de 2015 que proíbe a FGM, a qual criminaliza a prática, com penas de até três anos de prisão e até prisão perpétua em casos de morte.
Apesar da proibição, a aplicação da lei tem sido limitada, permitindo que a prática continue em segredo. As primeiras condenações ocorreram apenas em 2023, quando três mulheres foram responsabilizadas por realizar FGM em oito meninas. No entanto, apenas dois casos chegaram a julgamento até 2024.
Ativistas afirmam que, embora a lei tenha contribuído para a redução da FGM, ela também forçou a prática a se tornar clandestina, com algumas famílias realizando os procedimentos em idades ainda mais precoces para evitar a detecção.
A Gâmbia é um dos países africanos com a maior prevalência de FGM. De acordo com a Pesquisa Demográfica e de Saúde de 2019-2020, 65% das meninas passam pela FGM antes dos cinco anos, enquanto 18% são submetidas entre cinco e nove anos. A UNICEF estima que cerca de três em cada quatro mulheres gambianas tenham sofrido a prática.
Enquanto o país aguarda a decisão do Supremo Tribunal, o resultado poderá moldar não apenas o futuro da lei, mas também a vida de milhares de meninas cuja proteção está em jogo.
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