Goa, Índia – “Beba antes que o gelo derreta”, diz Eunice Lima Fernandes De Sa, enquanto coloca três copos altos com um líquido branco e leitoso sobre uma mesa coberta com rendas em sua casa em Ribandar, uma vila às margens do rio Mandovi, a poucos quilômetros de Panaji, a capital de Goa.

Sentando-se em sua varanda com vista para o rio, levanto meu copo. O primeiro gole gelado provoca uma dor aguda na minha testa, forçando-me a uma pausa. Uma riqueza de amêndoas cobre minha língua antes de ceder a uma leve doçura. À frente, um pequeno jardim se inclina a partir da casa, onde seu neto de três anos segura uma garrafa plástica com a mesma bebida nebulosa, tomando goles com curiosidade.

“Esta é minha orchata!” ele exclama, acenando com a garrafa. Para ele, é apenas uma bebida favorita, mas para muitos Goenses, a orchata se tornou uma memória distante; outros nunca ouviram falar dela.

Para aqueles que se lembram, a orchata carrega histórias familiares, celebrações e verões que se estendem por gerações. Mesmo sendo Goana, mas criada em Mumbai, a 600 km de distância, nunca havia ouvido falar dessa bebida até que um amigo compartilhasse um vídeo que circulava entre a diáspora Goana.

No vídeo, Eunice narrava como recriou a orchata décadas após ela desaparecer de sua vida. Sem receita, confiou em uma vaga memória de seu gosto de verões passados. A bebida havia sido parte da infância de sua amiga, que a consumia em um internato onde as freiras a preparavam em dias de festa, mas que se perdeu ao longo do tempo após a mudança para Mumbai.

Nos comentários do vídeo, muitos compartilhavam lembranças semelhantes, ligadas a casamentos e festas familiares. Uma mulher de Betalbatim, uma vila em Goa do Sul, recordou: “Eu me lembro de provar orchata no casamento de um vizinho — ele era médico. Um randpinn da vila costumava prepará-la.” Outra pessoa mencionou que “a orchata do Coelho era a melhor”, referindo-se a um estabelecimento familiar que produzia a bebida até fechar na década de 1990.

O Processo Tradicional e a Herança Cultural

A orchata é tradicionalmente doce, feita inteiramente de amêndoas e açúcar. As nozes são embebidas, descascadas e moídas em uma pasta branca espessa, que é cozida com açúcar e coada até ficar suave. Algumas receitas incluem água de rosas, cardamomo ou essência de amêndoa.

Historicamente, a bebida era feita por famílias de classe alta, de fala portuguesa e católicas que mantinham laços com os colonizadores portugueses. A receita também simboliza status, pois as amêndoas eram importadas e, em Goa tropical, o gelo era considerado um luxo.

A Nova Geração de Produtores

Nos últimos anos, alguns indivíduos e negócios começaram a produzir orchata novamente, frequentemente em pequenos lotes e sob encomenda. Em Margao, Goa do Sul, a professora Carol Baretto Miranda apresenta um livro de receitas familiar, que inclui uma receita de orchata. Para Oliver Fernandes, cofundador do The Goan Kitchen, a bebida representa um esforço maior para preservar alimentos e bebidas menos conhecidos de Goa antes que desapareçam completamente.

Na The Goan Kitchen, a orchata está disponível no menu de pré-encomenda, ao lado de mais de 250 pratos, muitos dos quais estão lentamente desaparecendo. Oliver destaca que, apesar da abundância de castanhas locais, as amêndoas foram mantidas na receita, reforçando a associação da bebida com riqueza e tradição.