A recente declaração do grupo militante Hamas, informando que desmantelaria sua administração civil, não alterou a realidade cotidiana dos gazanos, que ainda dependem das instituições mantidas pela organização. Eyad Saleh, um estudante de 19 anos, relatou que precisou ir a um escritório governamental para obter uma cópia de seu diploma universitário perdido durante a guerra. 'Não há outro lugar para ir em Gaza, exceto as instituições geridas pelo Hamas', afirmou Saleh em entrevista à DW.
Enquanto isso, Na'ama Saeed, de 39 anos, buscou a documentação necessária para um encaminhamento médico no Ministério da Saúde, ressaltando que esta é a única entidade autorizada a fornecer tais documentos. 'Se houvesse outro órgão oficial ao qual pudéssemos recorrer, não hesitaríamos', disse Saeed.
Planos oficiais sem mudanças no terreno
Em outubro de 2025, um plano de paz dos Estados Unidos previa a criação de uma nova administração em Gaza composta por tecnocratas independentes. O Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), supervisionado pela Junta de Paz, foi estabelecido, mas seus 15 membros permanecem retidos no Cairo, aguardando autorização de Israel para entrar em Gaza. 'Não há mudança, ninguém está assumindo o controle', comentou Ghassan Khatib, especialista em política internacional.
O Hamas, classificado como organização terrorista por diversos países, já declarou que suas instituições e funcionários permanecerão em funcionamento, continuando a supervisionar a segurança em partes do território sob seu domínio. Atualmente, o Hamas controla cerca de 30% da faixa de Gaza, enquanto 70% estão sob ocupação israelense, conforme indicado pelo Primeiro-Ministro israelense Benjamin Netanyahu, que descreveu essa divisão como uma zona de buffer.
Condições humanitárias e a percepção do Hamas
Desde os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, Israel retaliou, deslocando quase toda a população de 2,2 milhões de pessoas em Gaza e causando destruição massiva. A situação humanitária é crítica, com organizações de ajuda denunciando a obstrução de Israel ao fluxo de assistência. O coordenador especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio, Ramiz Alakbarov, criticou a obstrução das operações humanitárias por parte do Hamas.
Embora haja descontentamento crescente entre a população em relação ao Hamas e ao movimento Fatah, que domina a Autoridade Palestina na Cisjordânia, a confiança nas principais facções políticas tem diminuído. 'Aqueles que afirmam não confiar em nenhuma das facções políticas estão se tornando 60% da amostra em nossas pesquisas', observou Khatib.
Em meio a essa crise, Eyad Saleh expressou seu desejo por um novo começo. 'Não me importo com as facções políticas. Acredito que Gaza merece mais do que o Hamas e qualquer outra facção, pois todas falharam'.
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