Após sofrer agressões e ameaças de morte do ex-marido, Nany Cardoso optou por denunciar a situação e solicitar o divórcio. Sem emprego e morando temporariamente na casa do irmão com suas três filhas, ela alugou um carro para trabalhar como motorista de aplicativo em Niterói (RJ). "No começo, chegava a ficar 17 horas trabalhando direto. Tinha que trabalhar dobrado para cobrir o aluguel do carro e ainda sobrar. Apesar de tudo, foi o que fez minha vida melhorar, trouxe renda para cuidar das crianças e sustentar a casa", relata.
Casos como o de Cardoso são frequentes no Brasil. Em 2024, 187,9 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica, conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A dependência econômica é um dos principais obstáculos que impedem essas mulheres de deixarem relacionamentos abusivos. Um estudo revelou que 61% das vítimas não denunciaram os parceiros por depender deles financeiramente.
Desafios no mercado de trabalho
Ao tentar se reinserir no mercado de trabalho, essas mulheres enfrentam diversas dificuldades, como altas taxas de desemprego. Segundo a Organização Mundial do Trabalho (OIT), 72,1% dos homens em idade ativa estão empregados, em comparação a apenas 53,1% das mulheres. Além disso, um desequilíbrio na distribuição das responsabilidades domésticas impede 31,7% das mulheres de buscar trabalho, pois precisam cuidar de filhos ou parentes.
No contexto de violência, 17,1% das mulheres são impedidas de trabalhar ou estudar pelos parceiros. Assim, o trabalho informal, como o oferecido por aplicativos de transporte, se torna uma alternativa viável. Para a professora Noézia Ramos, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), essas plataformas representam "uma alternativa em um cenário de desespero".
Renda e flexibilidade como fatores decisivos
A advogada Andrea Sampaio, que estudou a categoria em sua dissertação de mestrado, destaca que o trabalho por aplicativo proporciona uma oportunidade rápida de geração de renda e maior autonomia para as mulheres. "É uma atividade que dá segurança para escolher estar ou não em um relacionamento e que permite conciliar trabalho e vida pessoal", afirma.
Atualmente, 103,3 mil mulheres atuam como motoristas de aplicativo no Brasil, um aumento de 62% em relação a quatro anos atrás, embora ainda representem apenas 6% do total de 1,7 milhão de motoristas. Apesar de possibilitar autonomia financeira, especialistas alertam que essa atividade é marcada pela precarização, com falta de proteção social e políticas públicas adequadas.
Um estudo da OIT e da ONU Mulheres apontou que, em média, as motoristas ganham 40% menos do que os homens nas plataformas. Noézia Ramos observa que essa diferença pode estar ligada à menor disponibilidade de tempo para trabalhar, devido às responsabilidades familiares que muitas dessas mulheres enfrentam.
Adicionalmente, as motoristas lidam com questões de segurança. Um levantamento revelou que 59% já enfrentaram assédio, assim como 97% das passageiras. Nany Cardoso, que já foi assaltada enquanto trabalhava, relatou que a insegurança é uma preocupação constante. As plataformas têm tentado implementar medidas de segurança, mas os desafios permanecem.
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