O transporte ferroviário nos Estados Unidos, historicamente negligenciado, está passando por um momento de crescimento, com recordes de passageiros nos últimos dois anos. Com os preços do combustível aéreo e da gasolina ainda elevados, muitos viajantes estão considerando os trens como uma alternativa mais econômica durante a temporada de viagens de verão.

No entanto, para aqueles que não estão familiarizados com a rede ferroviária do país, a realidade pode ser decepcionante. Muitas cidades carecem de boas conexões ferroviárias e serviços de alta velocidade, comuns em países da Europa e da Ásia.

Uma Herança de Prioridade ao Carga

Durante o século XIX, os EUA experimentaram um auge no transporte ferroviário, com milhares de quilômetros de trilhos conectando as costas e transportando pessoas e mercadorias. Contudo, essa fase não perdurou. A partir da metade do século XX, o governo federal começou a priorizar o financiamento para rodovias e aeroportos, tornando as viagens de carro e avião mais eficientes do que as linhas de trem de passageiros.

Ao contrário de muitos países europeus, que consideram os trens de passageiros um bem público essencial, os EUA focaram em trens de carga mais lucrativos. Essa herança se reflete na infraestrutura ferroviária, que atualmente é mais adequada para o transporte de mercadorias pesadas do que para passageiros em alta velocidade.

Um exemplo disso é a rota mais popular da Amtrak, o corredor do Nordeste, que conecta cidades entre Boston e Washington, DC, levando cerca de sete horas para percorrer 457 milhas (735 quilômetros). Em comparação, trens na Itália conseguem percorrer uma rota ligeiramente mais longa entre Nápoles e Milão em menos de cinco horas.

O 'Trem para Lugar Nenhum'

Enquanto o corredor do Nordeste não suporta trens de alta velocidade, a Califórnia tinha esperanças de estabelecer um exemplo positivo. Em 2008, o estado lançou uma iniciativa para ligar Los Angeles a São Francisco por meio de um trem-bala, prometendo reduzir a viagem de 12 horas para menos de 3 horas. Entretanto, o projeto ainda está na fase de planejamento, levando a muitos a chamá-lo de 'trem para lugar nenhum'.

O estado inicialmente destinou $9,95 bilhões para um projeto orçado em $33 bilhões, mas subestimou os custos de desenvolvimento, que agora são projetados em mais de $100 bilhões. Allan Zarembski, diretor do programa de engenharia e segurança ferroviária da Universidade de Delaware, sugere que as estimativas iniciais foram deliberadamente baixas para fins políticos.

Além disso, a resistência de comunidades que não desejam a ferrovia em seus bairros complicou ainda mais o progresso. Enquanto isso, a Califórnia avança na construção de uma seção menor da rota, prevista para ser inaugurada no início da década de 2030, enquanto a conexão completa deve ocorrer até 2038.

Apesar dos desafios, a transição para ferrovias de alta velocidade poderia beneficiar não apenas os passageiros, mas também o meio ambiente. De acordo com a Amtrak, seus trens elétricos geram até 83% menos emissões do que aviões e carros. Contudo, transformar os EUA em um país com viagens ferroviárias mais rápidas e eficientes requer investimentos significativos.

O governo Trump, desde que assumiu, buscou cortar drasticamente o financiamento federal para a infraestrutura ferroviária de passageiros, com propostas de cortes de 82% no orçamento do ano fiscal de 2027. A Amtrak estima que precisaria de um aumento orçamentário de mais de $100 bilhões e mais de 15 anos para concluir todas as melhorias planejadas no corredor do Nordeste.

Alon Levy, especialista em transporte da Universidade de Nova York, argumenta que as atualizações necessárias podem ser feitas por um custo muito menor, sugerindo que a adoção de tecnologias ferroviárias já testadas na Europa e na Ásia poderia ser uma solução mais viável.