A diplomacia brasileira lançou uma iniciativa para intermediar a cobrança de uma dívida que ultrapassa R$ 1 bilhão, acumulada pela Posco, um dos maiores conglomerados industriais da Coreia do Sul. A informação foi divulgada pela jornalista Gabriela Echenique, da Folha de S.Paulo.
A Posco, atuante no setor de siderurgia e construção, foi responsável pelas obras da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), situada no Ceará. A representação do Brasil em Seul notificou formalmente a matriz do grupo, a Posco Eco & Challenge, com o intuito de reabrir os canais de diálogo. O montante em questão inclui mais de R$ 40 milhões em impostos e taxas devidas ao governo brasileiro.
Mobilização do Itamaraty
Essa movimentação do Ministério das Relações Exteriores foi motivada por pedidos de intervenção de empresas brasileiras afetadas. Após a conclusão do complexo industrial no Ceará, a filial da Posco no Brasil entrou em falência. Com dificuldades para se comunicar com a sede na Coreia, os credores buscaram apoio do Itamaraty para facilitar as negociações.
As conversas estão sob a liderança do chanceler Mauro Vieira e iniciadas pela embaixadora Márcia Donner de Abreu, com continuidade prevista com Fernando de Azevedo Pimentel, novo chefe da embaixada brasileira em Seul.
Decisão Judicial e Acusações
A pressão diplomática ganhou força após uma decisão da 3ª Vara Empresarial de Fortaleza, onde o juiz Daniel Carvalho Carneiro autorizou a cobrança das dívidas da filial brasileira diretamente da matriz na Coreia do Sul. Esta decisão inclui o grupo asiático nas ações de cobrança movidas pelas empresas prejudicadas.
Os credores acusam a Posco de ter planejado uma “falência arquitetada” para transferir lucros para a sede na Coreia. Ao declarar falência, a Posco Brasil alegou estar enfrentando dificuldades devido à pandemia, afirmando ter apenas R$ 109 em conta corrente e R$ 11.000 em ativos disponíveis, além de um veículo.
No entanto, a Justiça identificou “ingerência direta” e “confusão patrimonial” por parte da matriz, que controlava contas bancárias e autorizava pagamentos.
O projeto da CSP foi uma joint venture envolvendo a brasileira Vale (50%) e as sul-coreanas Dongkuk (30%) e Posco (20%), com um custo total de US$ 5,4 bilhões. A subsidiária local terceirizou serviços essenciais, deixando fornecedores brasileiros sem receber.
Encontro Bilateral e Implicações Comerciais
Os credores agora se apressam para levar o problema ao conhecimento do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, que visitará o Brasil em 27 de julho para uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A estratégia das empresas é transformar a questão em um tema político, aumentando a pressão sobre a matriz da Posco.
Este conflito surge em um momento de estreitamento das relações diplomáticas, com um acordo de cooperação estratégica firmado entre Brasil e Coreia do Sul para o período de 2026 a 2029. Em 2025, o comércio entre os dois países movimentou US$ 11 bilhões, colocando a Coreia do Sul como o quarto maior parceiro comercial do Brasil na Ásia. Representantes do setor temem que a situação atual prejudique a imagem das relações comerciais bilaterais.
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